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Worldwatch Institute

 

Energia
A Era da Micro Geração


As gigantes usinas modernas – nucleares ou a carvão – estão perdendo a batalha. Não estão conseguindo fornecer a eletricidade confiável, de alta qualidade, necessária para mover a nova economia digital. É o que diz um relatório do Worldwatch Institute, organização de pesquisa com sede em Washington.

Interrupções no fornecimento de energia, devido à vulnerabilidade das usinas centrais e das linhas de transmissão, custam caro. Nos Estados Unidos, a conta pode chegar a US$ 80 bilhões anuais. Para Seth Dunn, autor de Micropower: The Next Electrical Era, a solução é a micro-energia.

Por trás desse nome, estão novas tecnologias que já provocam uma corrida dos investidores. O preço das ações das empresas especializadas disparou no início do ano. Não é difícil entender por quê. Trata-se eletricidade obtida diretamente por lares e empresas, com a utilização de novos aparelhos, que chegam a ser um milhão de vezes menores que usinas nucleares ou a carvão. Com a vantagem de ser muito menos poluentes que elas. Além de acenar com a idéia sedutora da independência – ou menor dependência – de fornecimento externo de eletricidade.

As novas tecnologias de micro-energia incluem células de combustível, microturbinas e telhados solares.

Quanto à energia obtida por combustão, motores de movimento alternado, que tradicionalmente utilizavam óleo diesel, são cada vez mais movidos a gás natural, operando durante a maior parte do dia. As microturbinas – turbinas de gás avançadas, derivadas dos motores a jato dos aviões – estão apenas começando a ser produzidas em massa e instaladas em lanchonetes, restaurantes e outras instalações comerciais nos EUA. Motores Stirling, que podem funcionar com aparas de madeira e até mesmo calor solar, estão se tornando populares nos lares europeus.

As células de combustível, apesar do nome, não envolvem combustão. São dispositivos eletroquímicos que combinam hidrogênio e oxigênio para produzir eletricidade e água. Já há centenas de unidades funcionando experimentalmente em todo o mundo. Uso doméstico, só daqui a dois anos.

No caso das células solares, ou fotovoltaicas (PV), que utilizam a luz do sol para gerar corrente elétrica, já há produtos disponíveis no mercado. Pelo menos em países como o Japão e a Alemanha.

Em relação à energia eólica (dos ventos), a mais barata das tecnologias de energia renovável, está tudo pronto para uma rápida expansão nas planícies rurais e áreas off-shore. Outras tecnologias, como pequenos sistemas geotérmicos, micro-hidráulicos e de biomassa, também desempenham papéis importantes no contexto da descentralização da eletricidade.

Esses geradores de pequena escala têm inúmeras vantagens em comparação às grandes usinas elétricas. Como estão perto dos pontos de consumo, unidades pequenas podem representar uma economia de milhões de dólares aos usuários, evitando novos e dispendiosos investimentos em usinas elétricas centrais e sistemas de distribuição.

A micro-energia poderá também significar a economia de milhões de dólares para famílias e empresas, por meio da redução dos apagões e conseqüentes perdas de produtividade. Uma teia de pequenos geradores de eletricidade é intrinsecamente mais estável do que uma rede servida por apenas poucas usinas de grande porte. Bancos, hospitais, restaurantes e agências dos correios estão entre os primeiros usuários de sistemas de micro-energia, como forma de reduzir o risco de interrupções de energia. Exemplo disso é o First National Bank of Omaha, no estado americano de Nebraska. Após ter sofrido grandes prejuízos em seu sistema de computadores devido a uma queda de energia, decidiu conectar sua central de processamento a duas células de combustível que proporcionam 99,9% de confiabilidade.

Quanto ao impacto no meio ambiente, o uso de sistemas com base em combustão, dependendo principalmente do gás natural, diminuirá significativamente as emissões de particulados, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e metais pesados. Essas reduções podem variar entre 50% a 100%, dependendo da tecnologia e do poluente.

O uso de energia eólica, solar e de células de combustível alimentadas a hidrogênio também pode ajudar a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono. Um terço delas provém da geração de eletricidade. Nos EUA, a adoção generalizada da micro-energia poderá baixar à metade as emissões de dióxido de carbono das usinas. Nos países em desenvolvimento, a energia em pequena escala poderá cortar as emissões de carbono em 42%.

A micro-energia proporcionará aos países em desenvolvimento a oportunidade de saltar diretamente para fontes energéticas mais baratas e limpas, em vez de construir mais usinas a carvão ou nucleares e estender as linhas de transmissão existentes. Em muitos desses países, de 20% a 50% da energia gerada é desperdiçada em escapes nos sistemas de transmissão e distribuição. Nas regiões rurais, onde 1,8 bilhão de pessoas ainda não tem acesso aos serviços de eletricidade, sistemas em pequena escala já são economicamente superiores à extensão das linhas de transmissão – e ambientalmente preferíveis à dependência contínua de lanternas a querosene e geradores a diesel. Até o momento, sistemas solares PV foram instalados em mais de
meio milhão de lares.

A despeito dos benefícios potenciais da micro-energia, as regras atuais de mercado na maioria dos países favorecem a manutenção do modelo centralizado. Além disso, muitas concessionárias elétricas vêem os sistemas micro-energéticos como uma ameaça econômica e estão dificultando sua implantação, por meio de taxas onerosas de ligação e preços baixos para a energia alimentada à rede. A permanência dessas regras e práticas poderá resultar na construção de outra geração de grandes usinas elétricas parcialmente aperfeiçoadas. Mas questionáveis em termos econômicos e ambientais. O reino das soluções míopes é evidenciado pela pressa na construção de aproximadamente 100 mil megawatts de “usinas mercantes” em todo o mundo. Essas grandes usinas a gás, comercializadas como resposta aos constantes casos de falta de energia, são projetadas para ganhar dinheiro com a venda de eletricidade a mercados de energia recentemente desregulamentados, de olho nos preços de uma alta demanda. Todavia, esses aparatos preocupam os investidores – em virtude do grau de risco financeiro – e grupos locais – por seus impactos ecológicos adversos, pois muitos se localizam em áreas rurais ou primitivas.

O risco de se fixar em usinas elétricas centrais obsoletas é ainda maior no mundo em desenvolvimento. Nos próximos 20 anos, cerca de US$ 1,7 trilhões estão projetados para investimentos de capital em capacidade geradora nos países em desenvolvimento. “Essas nações têm uma oportunidade de ouro para acertar as regras logo de primeira e organizar mercados que dêem sustentabilidade a sistemas adequados ao século XXI e não ao XX,” afirma Seth Dunn.


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