DESIGUALDADES SOCIAIS E ECONÔMICAS OBSTRUEM A AÇÃO AMBIENTAL GLOBAL


As desigualdades da riqueza, poder, oportunidades e sobrevivência entre os povos do mundo estão frustrando os esforços para reverter a degradação ambiental, como relata um novo estudo do Worldwatch Institute, Sinais Vitais 2000: As Tendências Ambientais que Determinarão Nosso Futuro.

"Do divisor digital global às epidemias devastadoras da AIDS e da tuberculose, as tendências em Sinais Vitais 2000 expõem as numerosas fendas entre o Norte e o Sul, dentro das nações e entre os homens e as mulheres," declara o Pesquisador Sênior do Worldwatch Michael Renner, co-autor do relatório. "Todavia, ao mesmo tempo precisamos de um grau de cooperação sem precedente para resolver os problemas globais."

A despeito da economia mundial ter produzido quase US$ 41 trilhões em bens e serviços durante 1999, 45 porcento da receita ficou para os 12 porcento da população mundial que vive nos países industrializados do ocidente. "Essa minoria rica é responsável, em grande parte, pelo consumo excessivo que impulsiona o declínio ambiental," disse a co-autora Molly O. Sheehan, Pesquisadora Associada do Worldwatch. Por exemplo, o consumo per capita de papel nas nações industrializadas é 9 vezes maior do que nos países em desenvolvimento. A quantidade de automóveis por pessoa é cerca de 100 vezes maior na América do Norte, Europa Ocidental e Japão do que na Índia ou China, de acordo com Sinais Vitais financiado pelo Fundo de População das Nações Unidas e a W. Alton Foundation.

"As disparidades entre ricos e pobres também são marcantes no mundo digital," diz Sheehan. "Embora o acesso à Internet esteja crescendo rapidamente no mundo em desenvolvimento, cerca de 87 porcento dos usuários vivem nos países industrializados. Menos de 1 porcento das populações da China, Índia ou do continente africano estão "on line."

Na corrida ao espaço cibernético os pobres não apenas ficaram para trás. A dívida do Terceiro Mundo atingiu um novo pico de US$ 2,5 trilhões em 1999, com algumas das nações mais pobres do mundo dedicando 30 porcento de seus orçamentos nacionais para o serviço dessa dívida. Os países em desenvolvimento também são mais vulneráveis à mudança climática, como as enchentes e corrimentos de terra devastadores na Venezuela em dezembro de 1999. Agravado pelo desflorestamento, o desastre causou a morte de mais de 30.000 pessoas.

Mas, mesmo as nações mais ricas não podem se isolar das ameaças globais emergentes. O ressurgimento da tuberculose (TB) pode matar outras 70 milhões de pessoas até 2020. Um declínio catastrófico de anfíbios está devastando uma fonte rica em novos remédios. A atmosfera em aquecimento provocou graves alterações climáticas, como as tempestades de dezembro de 1998 em regiões da Europa, que causaram quase US$ 10 bilhões de prejuízos na Europa Central e Ocidental. Alguns dos outros desafios comuns destacados em Sinais Vitais 2000 incluem:

· Proliferação de produtos químicos sintéticos: Embora pesquisas recentes tenham confirmado que vários agrotóxicos, compostos industriais e outros produtos químicos podem interferir com os sistemas endócrinos humanos e animais, mais de 1.000 novos produtos químicos estão sendo introduzidos no mercado mundial a cada ano, sem terem sido testados.
· Degeneração de mananciais: Mundialmente a água subterrânea está sendo extraída em excesso em pelo menos 160 bilhões de metros cúbicos por ano - aproximadamente o volume de água necessário para produzir um décimo do suprimento mundial de grãos - ameaçando a produção futura de alimentos e os padrões básicos de vida. Ao mesmo tempo, as atividades humanas estão liberando quantidades maciças de poluentes nos aqüíferos, contaminando irreversivelmente os mananciais que abastecem quase um terço da população do planeta.
· Alastramento do HIV e TB: A conscientização pública insuficiente, a disseminação do uso de drogas intravenosas e o comportamento sexual inseguro generalizado pressagiam uma explosão continuada da AIDS. Quase 50 milhões de pessoas já foram infectadas pelo vírus HIV e 16 milhões morreram. Enfraquecendo o sistema imunológico de suas vítimas, a AIDS é também a maior causa individual do ressurgimento mundial da tuberculose. Ambas as epidemias são agravadas por outras tendências analisadas em Sinais Vitais 2000: turismo em ascensão, movimentos de refugiados e elevação acelerada da população carcerária.

"Começamos a enfocar esses desafios globais," disse Renner, "mas freqüentemente conseguimos apenas atrasar as tendências destrutivas, ao invés de revertê-las. Para construirmos uma sociedade mais ambientalmente estável, sadia e igualitária, precisaremos incrementar maciçamente nossos esforços."

Embora o consumo de cigarros tenha caído em todo o mundo nos anos recentes, as mortes anuais deverão saltar de 4 milhões em 1998 para 10 milhões em 2030. Cerca de 80 porcento dos fumantes globais vivem nos países em desenvolvimento. Doenças relacionadas ao fumo deverão disparar nos países com menores condições de tratamento.
A epidemia de AIDS é especialmente devastadora na África sub-saariana, onde é responsável hoje por uma em cada cinco fatalidades, todo ano. A média de expectativa de vida deverá descambar de um pico de 59 anos no início da década de 90, para 45 anos nesta década. As pessoas carentes também são as mais atingidas pela tuberculose: 95 porcento de todos os casos novos registrados em 1998 ocorreram nos países em desenvolvimento.

Outra tendência que não está evoluindo com a rapidez necessária, na direção certa, é a emissão de carbono. Em todo o mundo as emissões de carbono causadas pela queima de combustíveis fósseis caiu 0,2 porcento em 1999, marcando o segundo ano consecutivo de declínio. Todavia, serão necessárias reduções bem mais significativas para se atingir os 70 porcento que muitos cientistas acreditam ser o necessário para evitar uma mudança climática perigosa. Neste caso, o consumo nos países ricos está obstruindo o avanço. O crescimento na produção automotiva e a queda de eficiência de combustíveis resultante do incremento das vendas de utilitários esportivos, impedem um declínio mais substancial.

As disparidades globais não ocorrem apenas entre os países ricos e pobres, mas também entre homens e mulheres. "As mulheres compõem mais de dois terços da população analfabeta e três quintos dos pobres," disse Sheehan, "e representam apenas 13 porcento dos membros das legislaturas nacionais." O crescimento populacional é mais acelerado nas regiões mais pobres do mundo, onde as mulheres freqüentemente não têm acesso ao planejamento familiar e à educação. O população mundial ultrapassou o marco de 6 bilhões em 1999, crescendo de apenas 2,5 bilhões em 1950.

Sinais Vitais 2000 destaca várias tendências encorajadoras em energia renovável e tecnologias eficientes. Por exemplo, 1999 testemunhou o incremento da fonte energética de maior crescimento no mundo, a energia eólica, em 39 porcento; a expansão de células solares em 30 porcento e as vendas de lâmpadas fluorescentes compactas, de baixo consumo energético, crescer significativamente em 11 porcento. À medida que essas alternativas energéticas cresçam e se enraízem em países em desenvolvimento também, causarão um impacto sensível nas emissões de carbono e ajudarão a estabilizar o clima.

Outro exemplo de uma tendência positiva que poderia ser acelerada é a lavoura orgânica. A maioria da economia agrícola em todo o mundo estagnou, porém as vendas de produtos orgânicos estão crescendo a uma taxa superior a 20 porcento ao ano. Agricultores orgânicos substituem os agrotóxicos com uma maior diversidade de lavouras, rotações e estratégias sofisticadas de controle de pragas. Conseqüentemente, o cultivo orgânico pode reduzir a poluição de lençóis freáticos, ameaças à vida silvestre e a exposição humana aos pesticidas. Os agricultores europeus duplicaram a área cultivada com métodos orgânicos para 4 milhões de hectares, em apenas 3 anos. Na Itália e na Áustria, a parcela de terras agrícolas certificadas como orgânicas ultrapassou 10 porcento em 1999. Os agricultores em todo o mundo deverão reduzir o plantio de sementes transgênicas em 2000.

A reforma fiscal é uma entre várias ferramentas políticas que poderá acelerar uma mudança ambiental positiva. Aplicando impostos em combustíveis fósseis, agrotóxicos e outros poluentes, governos poderão simultaneamente reduzir o declínio ambiental e os encargos sobre a renda, salários, lucros e imóveis. Na última década, oito países ocidentais lideraram "mudanças fiscais," elevando impostos sobre atividades ambientalmente prejudiciais e utilizando a receita para o corte de impostos convencionais. Embora essas nações tenham dado os primeiros passos modestos, os impostos ambientais terão que ultrapassar a receita fiscal mundial dos 3 porcento gerados atualmente, a fim de que possam interromper o declínio ambiental global.

Os tratados internacionais podem ajudar a impulsionar as reformas. A lista de acordos ambientais internacionais hoje chega a quase 240. Cinco foram celebrados só no ano passado, e mais de dois terços do total foram elaborados desde a conferência das Nações Unidas sobre o meio-ambiente em Estocolmo, em 1972. O Protocolo de Montreal de 1987 sobre a redução do ozônio está entre os acordos mais bem-sucedidos, estimulando uma queda de quase 90 porcento nas emissões mundiais de clorofluorcarbonados (CFCs). Entretanto, a maioria desses tratados não são fortes o bastante nem suficientemente monitorados e aplicados para reverter o declínio ecológico.

O crescimento do setor de sensoriamento remoto é uma tendência potencialmente benéfica para os esforços de proteção ambiental. Os satélites podem coletar informações detalhadas sobre partes da Terra que, de outra forma, seriam de difícil acesso, e podem registrar mudanças ao meio-ambiente em grandes extensões e por longos períodos de tempo. Organizações internacionais e governos nacionais também podem incorporar o monitoramento por satélite nos esforços crescentes para a aplicação das legislações ambientais internacionais e nacionais.

"Como sugere o potencial não-realizado do sensoriamento remoto, as soluções para a superação das desigualdades sociais e reversão do declínio ambiental não serão simplesmente técnicas," disse Renner. "Precisaremos de uma movimentação intensa de apoio popular para incitar os governos a utilizarem toda a gama de instrumentos ao seu dispor - desde impostos e leis às novas tecnologias de informação - a fim de reverter as tendências que ameaçam nosso futuro."

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