Escassez de Água Contribui para Déficit na Colheita Mundial de Grãos

 

 

Lester Brown*

 

Enquanto os americanos celebram outra abundante colheita de grãos, há sinais que a colheita mundial começa a quebrar quando a escassez de água redunda em carência de alimentos. Em sua análise da safra mundial em novembro, o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos informa que a colheita mundial de grãos, de 1.841 milhões de toneladas estará 54 milhões de toneladas aquém do consumo projetado de 1.895 milhões de toneladas. Isto ocorre logo em seguida à fraca safra do ano passado, quando a produção mundial sofreu um déficit de 34 milhões de toneladas.

 

Estas duas colheitas desapontadoras consecutivas reduziram as projeções do estoque excedente mundial do próximo ano – ou seja, o volume disponível ao se iniciar uma nova safra – para 22 porcento do consumo anual, o nível mais baixo em 20 anos. Com os estoques em níveis tão baixos, toda a atenção estará voltada para a colheita de 2002. Outro déficit poderá disparar um aumento de preço nos grãos e preços maiores para o pão, carne, leite, ovos e outros produtos derivados direta ou indiretamente dos grãos.

 

As fracas colheitas dos últimos dois anos foram, em grande parte, conseqüência da queda dos preços, seca e alastramento da escassez de água. Os preços mais baixos em duas décadas desestimularam os investimentos dos agricultores em medidas de incremento à produção.

 

Preços muito baixos para estimular a produção podem ser rapidamente remediados à medida que o mercado reage à falta de oferta. Porém, lidar com a escassez de água causada por secas, exaustão de aqüíferos e desvio de água escassa para as cidades, é muito mais difícil.

 

Os lençóis freáticos estão hoje caindo nas principais regiões produtoras de alimentos – a planície norte da China, o Punjab na Índia e o sul das Great Plains dos Estados Unidos. A planície norte da China é responsável por um terço da colheita de grãos. O Punjab, uma região agrícola altamente produtiva, é o celeiro da Índia. E no sul das Great Plains faz dos Estados Unidos o maior exportador mundial de grãos.

 

Numa economia mundial cada vez mais integrada, a escassez de água cruza fronteiras através do comércio internacional de grãos. Uma vez que são necessárias 1.000 toneladas de água para produzir 1 tonelada de grãos, a maneira mais eficiente para os países com déficit hídrico importarem água é importando grão.

 

Hoje, o mercado importador de grãos com crescimento mais acelerado é o da África do Norte e o Oriente Médio, a região que sofre a mais grave carência de água do mundo. Praticamente todos os países nesta região – desde o Marrocos no leste, atravessando o norte da África e o Oriente Médio, até o Irã – estão enfrentando escassez de água. Com seu suprimento limitado, os países atendem sua crescente demanda por água nas cidades e na indústria desviando-a da agricultura. Então, importam grãos para compensar a perda da capacidade produtiva.

 

Freqüentemente se fala que as guerras futuras nesta região provavelmente serão disputadas pela água e não pelo petróleo. Pode ser, mas é muito difícil ganhar a guerra da água. A competição pela água provavelmente ocorrerá nos mercados mundiais de grãos.

 

Nos últimos anos, as importações de grãos do Irã, um país com escassez de água e déficit de grãos, ofuscaram as do Japão, há muito o maior importador mundial de trigo. No ano passado, também o Egito superou o Japão, Tanto o Irã quanto o Egito hoje importam mais de 40 porcento dos grãos que consomem. A população em ambos estes países continua a crescer, mas suas reservas aqüíferas não.

 

Os exportadores de grãos são, efetivamente, exportadores de água. O Canadá, onde a exportação da água é uma questão politicamente sensível, é um dos principais exportadores mundiais de água sob a forma de grãos. As 18 milhões de toneladas de grãos, principalmente trigo, que embarca para o exterior a cada ano, incorporam 18 bilhões de toneladas de água. Igualmente, as exportações anuais de grãos dos Estados Unidos, totalizando 90 milhões de toneladas, representam 90 bilhões de toneladas de água, um volume que suplanta o fluxo anual do Rio Missouri, de 67 bilhões de toneladas.

 

A adequação do suprimento de alimentos à água é estreita. Cerca de 70 porcento de toda a água extraída do subsolo ou desviada de rios é utilizado para a produção de alimentos, enquanto 20 porcento é utilizado pela indústria e 10 porcento destina-se ao consumo residencial. Com 40 porcento da colheita mundial de grãos produzidos em terras irrigadas, qualquer coisa que reduza o suprimento de água de irrigação reduz a oferta de alimentos.

 

O coringa do mercado mundial de grãos é a China. Este país foi responsável por 45 milhões de toneladas do déficit da colheita deste ano, de 54 milhões de toneladas. No ano passado, a colheita chinesa sofreu um déficit frente ao consumo de 33 milhões de toneladas. Em dois anos, reduziu seus estoque em quase 80 milhões de toneladas.

 

Entre as forças que reduziram a colheita na China estão as secas agudas no norte durante os últimos dois anos, disseminando a escassez de água de irrigação à medida que os aqüíferos eram exauridos e a água desviada para as cidades, e a redução dos preços mínimos. A seca acabará, porém a escassez de água não. Num país dependente de terras irrigadas para 80 porcento do seu grão, a escassez de água está rapidamente se transformando numa questão de segurança nacional.

 

Em 1994, num esforço ambicioso e bem-sucedido para a auto-suficiência, a China elevou os preços mínimos em 40 porcento. Infelizmente, o saque sobre o tesouro foi grande demais, e assim os preços foram reduzidos, caindo para perto dos níveis do mercado mundial. À medida que os preços caíram nos últimos três anos, a área cultivada encolheu em 10 porcento.

 

A China absorveu o déficit da colheita dos últimos dois anos sacando sobre seus estoques, porém há sinais que esta reserva está se reduzindo. Caso esta imensa nação sofra outro grande déficit, provavelmente terá que importar quantidades substanciais de grãos para manter a estabilidade dos preços dos alimentos. A China, com uma população equivalente à Índia e Estados Unidos juntos, tem uma economia forte e um superávit comercial com os Estados Unidos superior a US$ 80 bilhões. Precisaria apenas de US$ 35 bilhões deste superávit para comprar toda a colheita americana de grãos. A China pode competir não apenas com os cerca de 100 países que importam grãos dos Estados Unidos, mas também com os consumidores americanos, se for preciso.

 

Se a colheita mundial de 2002 ficar aquém do consumo quando os estoques estão a níveis tão baixos, os preços se elevarão. Preços mais altos inibirão o consumo, particularmente de ração para gado, e incentivarão a produção. A oferta e procura novamente se estabilizará, porém a um nível maior de preço.

 

Se a demanda mundial de grãos continuar a crescer durante o próximo ano, à taxa de 16 milhões de toneladas/ano da última década, então a colheita terá que dar um saldo de 70 milhões de toneladas para evitar um maior saque nos estoques. Resta ver se isto poderá ocorrer, face à crescente escassez de água.

 

À medida que o déficit hídrico se expande em países carentes de água, também aumentarão os déficits de grãos. A nova realidade é que, ao se defrontar com escassez de água o mundo também se defronta com escassez de alimentos.

 

Uma análise do mapa demográfico revela outra realidade preocupante. A maioria das 80 milhões de pessoas que são adicionadas à população mundial a cada ano, está sendo adicionada em países que já sofrem escassez de água. A recuperação de um equilíbrio entre a oferta e a demanda da água, em todo o mundo, pode agora depender da estabilização populacional nos países com déficit hídrico.

 

Lester Brown é fundador do WWI-Worldwatch Institute e do EPI-Earth Policy Institute.

 

 

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