Queda na Colheita de Grãos
 
Lester R. Brown
 
A produção mundial de grãos em 1999 caiu para 1.855 milhões de toneladas, 1 porcento abaixo da colheita anterior de 1.871 milhões de toneladas. A queda da colheita de 1999 assinalou a segunda queda consecutiva do pico de 1.879 milhões de toneladas alcançado em 1997 Em termos per capita, a produção declinou para 309 quilos em 1999, uma queda de aproximadamente 10 porcento da alta histórica de 342 quilos em 1984. Nos três principais grãos – trigo, arroz e milho – a produção de trigo e milho caiu, individualmente, em cerca de 1 porcento, enquanto a do arroz subiu um pouco acima de 1 porcento.  Num volume de 598 milhões de toneladas em 1999, a colheita de milho manteve sua vantagem histórica recente sobre o trigo, que atingiu 584 milhões de toneladas.
 
A China mantém sua posição de maior produtor mundial de grãos: sua safra de 395 milhões de toneladas ultrapassou a colheita de 333 milhões dos Estados Unidos em cerca de 19 porcento.  A Índia, com uma safra de 185 milhões de toneladas, ficou em terceiro lugar. Em conjunto, esses três países representam aproximadamente metade da produção mundial de grãos. A parcela da safra mundial de grãos destinada à alimentação se manteve em grande parte inalterada em 1999, em 37 porcento.  Em outras palavras, quase um terço da safra de grãos é consumida indiretamente sob a forma de produtos pecuários. Tomando cada grão individualmente, quase toda a safra de arroz é consumida diretamente como alimento. Contrariamente, embora o milho seja o alimento básico em muitos países da América Latina e da África sub-saariana, no resto do mundo é mais consumido como ração. O consumo do trigo se divide mais eqüitativamente entre alimento e ração. É o alimento básico predominante no ocidente, como também na China e Índia. Na Europa ocidental, oriental e a ex União Soviética, o trigo também é largamente utilizado como ração. 
 
O contraste mais interessante nas tendências dos grãos na década passada, talvez tenha sido entre a ex União Soviética e a China. A produção de grãos na ex União Soviética estava em queda livre durante a década de 90.  A produção de trigo, por exemplo, caiu de 102 milhões de toneladas em 1990 para 66 milhões em 1999, um declínio de um terço.  Enquanto isso, a safra de grãos grossos caiu de aproximadamente 103 milhões de toneladas para 44 milhões de toneladas, uma redução assustadora para menos da metade, assinalando a primeira vez na época moderna que uma das principais sociedades industriais sofreu tamanho declínio sustentado na produção de alimentos.
 
Na China, contrariamente, a produção de grãos durante a década de 90 elevou-se em cerca de 15 porcento, subindo de 343 milhões para 395 milhões de toneladas.  Há vinte anos atrás, ou talvez até mesmo há dez anos atrás, poucos teriam previsto que o destino econômico dos dois gigantes comunistas pudesse se distanciar tanto durante a década de 90. Enquanto a China está surgindo como uma superpotência econômica, a maioria das 17 repúblicas da ex União Soviética está em deterioração econômica. Não há indicação alguma que a situação cada vez pior da agricultura na Rússia, a maior das repúblicas, venha a reverter no futuro próximo. A combinação de paralisia política, corrupção e liderança inepta deverá continuar durante muito tempo.
 
Também os padrões da produção em geral ou o comércio mundial de grãos não se alteraram muito nos últimos dois anos. Durante os últimos quatro anos, o comércio mundial de trigo flutuou entre 118 milhões e 125 milhões de toneladas.  Enquanto isso, o comércio de grãos grossos manteve-se estável em torno de 105 milhões de toneladas, exceto em 1997, quando os altos preços reduziram este comércio para aproximadamente 100 milhões de toneladas.  O fluxo internacional de arroz, que aumentou de 20 milhões de toneladas em 1996 para 27 milhões de toneladas em 1997, sofreu um certo declínio desde então.
 
Com duas quedas consecutivas na colheita mundial de grãos, os estoques acumulados (o volume disponível ao se iniciar uma nova safra) em 2000 eqüivalem a um consumo aproximado de 66 dias.  Embora esteja bem acima da baixa recorde de 53 dias em 1996, mesmo assim ainda é inferior aos 70 dias necessários para compensar uma má colheita.  Se a economic global expandir em 3,5 porcento, como previsto e a população mundial crescer em quase 80 milhões, a demanda mundial de grãos se elevará durante 2000.  A não ser que a produção acompanhe essa alta, os preços baixos dos grãos do final da década de 90 começarão a se recuperar.
 
 

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