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DESAFIO À POSIÇÃO AMERICANA SOBRE KYOTO

 

 

O Presidente Bush deu novo alento ao esforço global no combate à mudança climática. Na Europa, o choque à rejeição precipitada de Bush do protocolo de Kyoto transformou-se em indignação. Sua rejeição também incentivou uma nova determinação para implementar o protocolo – mesmo sem os Estados Unidos.

Da Europa à China cresce um consenso que o mundo não pode se dar ao luxo de aguardar outra década para que a elaboração de um outro protocolo sobre o clima. Da calota de gelo do Polo Norte – que já perdeu 40 porcento de sua espessura na última década – até os recifes de coral próximos ao Equador – um quarto dos quais foram mortos pelo aumento da temperatura oceânica ou outras pressões – a Terra está nos dizendo que entramos numa era de perigosa mudança climática que já ameaça toda a população humana do planeta. Os prejuízos econômicos causados por desastres naturais só na última década somam US$ 608 bilhões – tanto quanto nas últimas quatro décadas combinadas.

Ao rejeitar o Protocolo de Kyoto, o Governo Bush colocou as 180 nações co-signatárias numa posição dificil. A redução do apetite insaciável americano por combustíveis fósseis é crucial para a estabilização do clima da Terra.

Os Estados Unidos são responsáveis por quase um quarto das emissões globais de dióxido de carbono e praticamente nada faz para controlá-las. Desde 1990 – o ano-base do Protocolo de Kyoto – as emissões dos Estados Unidos cresceram mais 13 porcento. Na Europa, as emissões aumentaram em apenas um porcento. O aumento das emissões americanas durante os últimos 10 anos equivale ao aumento conjunto das emissões da China, Índia e África – regiões em rápido desenvolvimento que totalizam uma população dez vezes maior que a dos EUA.

Embora o Presidente Bush tenha argumentado que o Protocolo de Kyoto poderia prejudicar a economia americana, sua não-implementação, na realidade, será mais danosa. O Governo Bush, com suas profundas ligações pessoais e financeiras com a indústria dos combustíveis fósseis, está tentando levar a nação de volta às fontes energéticas do petróleo e do carvão, de outras eras. Isto será um erro econômico extremamente grave. No final, aqueles países que mais cedo lidarem com a mudança climática dominarão os gigantescos mercados das novas tecnologias energéticas do novo século, gerando ao mesmo tempo milhões de novos empregos.

Muitos países já se apressam na busca de uma nova geração de tecnologias energéticas do Século XXI, como células de combustível, turbinas eólicas e geradores solares. Na Europa, o mercado da energia eólica e outras tecnologias de energia renovável cresce a taxas de dois dígitos – fornecendo mais de 10 porcento da eletricidade em algumas regiões.

Embora encoraje estas mudanças fundamentais, o Protocolo de Kyoto não é perfeito. Ironicamente, isto é devido em grande parte às brechas que o governo norte-americano anterior insistiu em introduzir. Todavia, um governo responsável teria se aliado a outros governos nestes três anos de esforços para a melhoria e conclusão do acordo, ao invés de insistir em voltar à estaca zero porque um entre 180 governos mudou de idéia.

 

Efetivamente, Kyoto é tudo que nos separa de um futuro de tempestades mais intensas e da elevação do nível do mar. Chegou a hora da Europa, do Japão e de outras nações desafiarem os Estados Unidos adotando o Protocolo.

Durante muitas décadas, o mundo dependeu dos Estados Unidos para a condução dos acordos ambientais internacionais. Mas agora acabou. Contrariamente ao Governo Clinton, cuja oposição a Kyoto era hesitante e opaca, a oposição do Governo Bush é grosseira, clara e irreversível.

Mas hoje outros países, unidos pela ação arrogante do governo norte-americano, estão se preparando para assumir uma liderança maior. A Europa tem como aliado o Japão, forçado pelo Governo Bush a abandonar sua aliança tradicional com os Estados Unidos em política climática.

Numa virada interessante, argumenta-se na Europa que a violenta rejeição do Protocolo de Kyoto pelo Presidente Bush pode ter, efetivamente, melhorado as chances de ser adotado na reunião decisiva de julho, na Alemanha.

 

Christopher Flavin é Presidente do Worldwatch Institute, em Washington.

 

 

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