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Correio da Bahia
27 de novembro de 1999
Entrevista Lester Brown presidente do Worldwatch Institute

'Perdemos mais espécies neste século do que nos últimos 65 milhões de anos'

Aos 65 anos, o professor norte-americano Lester Brown é considerado um dos papas do movimento ecológico mundial. Presidente-fundador da Worldwatch Institute ("o observador do mundo") há 25 anos, Brown carrega como principal bandeira a defesa de uma economia ambientalmente sustentável, leia-se, a transformação do atual sistema econômico global, que se vale da devastação dos recursos naturais para crescer, em um que se baseie em energia renovável - oriunda do vento e do sol, por exemplo - e que reutilize e recicle materiais..

O norte-americano esteve semana passada em Salvador e em outras três capitais do país para falar sobre o papel do Brasil no desenvolvimento sustentável global e para lançar a primeira edição em português do relatório anual sobre o meio ambiente Estado do Mundo, best-seller do Worldwatch traduzido em mais de 30 línguas. O documento será publicado no país pela instituição baiana UMA - Universidade Livre da Mata Atlântica cujo site na internet é www.worldwatch.org.br.

Nesta conversa, ele faz um prognóstico sobre a preservação ambiental no próximo século e alerta: "O futuro do Brasil vai depender, sobretudo, de sua habilidade em proteger sua enorme biodiversidade. O país ainda não caiu em si. Está perdendo muito de sua saúde biológica, antes mesmo que possa se utilizar delas de forma consciente e produtora de riquezas".

Marcos Vita

Correio da Bahia - Como consolidar uma economia ambientalmente sustentável no mundo do próximo século?

Lester Brown - Uma das coisas que ficam claras quando fazemos uma retrospectiva deste século é que o destino da economia atual não apresenta mais nenhuma perspectiva de progresso. Essa economia se sustenta no desmatamento das florestas, extinção de espécies e poluição das águas, o que ocasiona efeitos maléficos como aumento da temperatura e desertificação do solo. Diante disso, é necessário reestruturar o sistema econômico para que o progresso possa continuar. Aí reside a importância do desenvolvimento de uma economia ambientalmente sustentável. O interessante é que já podemos ver alguns resultados dela no mundo atual. Vemos, por exemplo, que a tecnologia utilizada na captação da energia solar e eólica (dos ventos) têm avançado muito em todo o planeta. Os japoneses já possuem prédios completamente alimentados por energia solar. A Dinamarca tem 8% de seu fornecimento de energia elétrica oriunda dos ventos. Navarra, na Espanha, tem 22%. Esse avanço pôde ser percebido apenas nesses dois últimos anos, o que representa um desenvolvimento considerável.

CB - O que vem contribuindo para esse crescimento?

LB - Dois fatores contribuem para isso: o primeiro é a não destruição do meio ambiente e o outro é o baixo custo dessas fontes de energia renovável. O desafio agora é apressar ainda mais esse desenvolvimento. A chave para isso é reestruturar os sistemas de tributação, taxando a utilização de fontes de energia que prejudiquem o meio ambiente. Assim, estaremos contribuindo para o incentivo da energia renovável.

CB - Qual é o grande empecilho para o desenvolvimento da economia sustentável no planeta?

LB - A maior dificuldade é que temos uma economia de mercado que não nos diz a verdade. Quando compra um galão de gasolina, você está pagando o preço da extração e da distribuição do produto, mas não do tratamento de saúde do mal decorrente da inalação dos gases poluentes produzidos por ele. A nossa idéia, portanto, é taxar esses produtos que causam doenças de forma a cobrir os custos com o tratamento de saúde dos cidadãos. Quando o mercado começar a dizer a verdade, os investimentos serão direcionados em busca de um sistema econômico sustentável. Um exemplo concreto foi o que se iniciou há um ano atrás com a indústria americana de cigarros, que passou a ser responsabilizada pelos custos do tratamento dos males causados à saúde da população.

CB - Que função o Brasil terá nessa nova conjuntura?

LB - Sob o ponto de vista ambiental, o Brasil é uma superpotência. Pela infinidade de recursos naturais, o país tem opções como nenhum outro para começar a progredir em direção a uma economia ambientalmente sustentável. Mas a saúde dessa biodiversidade está sendo destruída. E isso é um erro. Só para se ter uma idéia dessa riqueza, nas florestas do Brasil podem residir a cura para muitas doenças que existem e que ainda vão existir. O país, portanto, tem tudo para se posicionar como um líder nessa mudança. Isso significa que o Brasil tem a chance de não passar por certos estágios de degradação que países como os Estados Unidos estão passando. Pode ir direto rumo às tecnologias que desenvolvem o uso de fontes de energia renovável.

 

CB - O sr. quer dizer que a disponibilidade de recursos naturais poderá ser sinônimo de poder para o Brasil no próximo século...

LB - Antigamente, quem detinha o petróleo era politicamente forte. No futuro, os recursos biológicos serão mais importantes. E o Brasil está numa posição de comando nesse aspecto. É necessário, portanto, que o país preserve esses recursos. O futuro do Brasil vai depender, sobretudo, de sua habilidade em proteger sua enorme biodiversidade.

CB - O país caminha nesta direção?

LB - Não muito rápido. Na verdade, o Brasil ainda não caiu em si, isto é, não percebeu a sua importância nesse novo contexto. Há um século, a Arábia Saudita não sabia sobre seu potencial petrolífero. Hoje nós só o sabemos porque foi descoberto. E isso está acontecendo agora com o Brasil, que está perdendo muito de sua saúde biológica. Ela está sendo destruída antes mesmo que o país possa se utilizar delas de forma consciente e produtora de riquezas.

CB - O sr. enxerga alguma evidência da consciência ecológica no Brasil?

LB - Na ECO 92, no Rio de Janeiro, o governo brasileiro falou muito sobre proteção das florestas e sua importância biológica. Mas, de fato, o poder público não vem fazendo um bom trabalho nesse aspecto. Acho, inclusive, que muitos brasileiros estão desapontados com o lento progresso nesse sentido. O Brasil ainda tem muito o que evoluir.

CB - Como o sr. vê a biopirataria na Amazônia?

LB - Não sei de muitos detalhes nesse sentido, mas se o Brasil continuar destruindo seus recursos antes que eles sejam conhecidos, não haverá nem biopirataria. Alguns países, como a Costa Rica, têm feito acordos com a indústria farmacêutica para examinar sistematicamente as plantas, verificando seu valor. Desta forma, qualquer descoberta renderá ao governo desses países uma percentagem em forma de royalties. Eu penso que é isso que os outros países devem fazer para se beneficiar dos recursos que possuem.

CB - Que análise o sr. faz da preservação da natureza mundial neste século?

LB - Está sendo um desastre. Nós perdemos mais espécies neste século do que nos últimos 65 milhões de anos. Isso pode piorar no próximo século, ao menos que façamos algumas mudanças. A principal delas é preservar os recursos naturais a fim de estabilizar o clima, pois se ele não se estabilizar, o ecossistema também não o fará. Os Estados Unidos deveriam ser os líderes dessas mudanças, já que são também os líderes na emissão de gases poluentes no mundo.

CB - O que levou o planeta a tanta devastação neste século?

LB - O fenômeno não foi intencional. Tudo o que queríamos era expandir nossa economia por conta, sobretudo, do crescimento populacional. O resultado é que, entre 1950 e 1999, a economia mundial se sextuplicou. A economia não teve estrutura para suportar esse crescimento. Está aí, portanto, a razão dos desmatamentos, da poluição e outros problemas ecológicos que afetam o mundo. É tempo de se pensar em estabilizar o crescimento populacional e de também consumir de forma a não destruir o que ainda nos resta. Antes o que levava à destruição de civilizações eram problemas locais. Veja o caso dos Maias, que se extinguiram por conta de seus problemas localizados no seu próprio ambiente. Hoje, porém, com a globalização, os danos são maiores e o mundo inteiro sofre com esses problemas.

CB - Como as novas tecnologias, Internet principalmente, podem contribuir para a preservação ambiental?

LB - A chave para proteger a natureza é tornar o público consciente da necessidade disso. O mais excitante dessas novas tecnologias, sobretudo da Internet, é prover o acesso a informações que o público em geral não tinha antigamente.

CB - Diante desse avanço, quais são as perspectivas para a preservação do ambiente no próximo século?

LB - Nós não precisamos entrar no novo milênio para perceber que enfrentamos um grande problema com a devastação dos nossos recursos naturais. Precisamos corrigi-lo, seguir o caminho da economia sustentável. Esse é o maior desafio da nossa geração. Se nós não corrigirmos esse problema, as futuras gerações não vão nos perdoar.

CB - Qual o futuro da água? Como lutar contra o comprometimento dos mananciais do mundo?

LB - Em muitos países, sobretudo na Índia, a população cresce e o suprimento de água não acompanha esse crescimento. O que a Índia precisa é suprir esse crescimento populacional em até 20 anos para que ele se estabilize. Caso contrário, de acordo com os prognósticos de crescimento demográfico na região, não haverá água para suprir às necessidades básicas da população.

CB - Cientistas e alguns segmentos da população argumentam que as plantas transgênicas (que recebem genes de outros organismos para obter resistência a insetos e agrotóxicos, por exemplo) podem comprometer o ambiente e a saúde das pessoas que as ingerem. O sr. Acredita nisso?

LB - É difícil dizer. A indústria farmacêutica já utiliza transgênicos para desenvolver novos medicamentos. Por enquanto não tenho notícia de alguém que tenha tido problemas de saúde depois de ingerir esses remédios. Mas não descarto a possibilidade de ele vir a ter esses problemas. Os fazendeiros, para se defender de insetos, podem usar agrotóxicos e conhecemos os problemas causados por eles. Hoje, pode-se usar as plantas geneticamente "modificadas" para se defender de tipos específicos de insetos. Mas fica a pergunta: qual o mais destrutivo, inseticidas ou transgênicos? Não sei a resposta e nem conheço ninguém que a saiba. Escuto pessoas a favor e contra os produtos transgênicos, mas enxergo mais emoção do que razão em seus argumentos. A verdade é que estamos enveredando por muitas áreas e as conseqüências dessas ações ainda não são bem conhecidas. Os cientistas podem checar alguns aspectos de suas descobertas no laboratório, mas só saberemos suas conseqüências reais na prática.

CB - O número de organizações não governamentais internacionais no mundo quase sextuplicou da década de 1950 até este ano, sendo 25 mil no mundo atual, de acordo com a Worldwatch Institute. Será que as ONG's poderão compensar as limitações de governos e corporações?

LB - É um fato que essas organizações estão tentando preencher uma lacuna deixada por instituições do governo. Worldwatch existe porque havia uma lacuna na pesquisa das questões ambientais do mundo. O que nós fazemos deveria ser feito pela ONU. O fato de nossas publicações estarem em várias línguas torna nosso trabalho mais eficiente. Nosso objetivo é preencher essa lacuna.

Publicações do Worldwatch em português http://www.wwiuma.org.br/form1.php3