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Folha de São Paulo
São Paulo, Domingo, 28 de Novembro de 1999
MARCELO LEITE
especial para a Folha

Lester Brown, 65, tem dois filhos, uma bicicleta e nenhum carro. Coisa tão rara para um norte-americano quanto um ambientalista admitir que não tem posição formada sobre os alimentos transgênicos (de preferência, contra). Essa franqueza não impede que o presidente do prestigiado "think tank" ambiental Worldwatch Institute, de Washington, seja ouvido por muitos.

Da mais verde organização não-governamental (ONG) aos altos escalões dos governos e da ONU, todos prestam atenção quando ele faz previsões e estimativas - como a de que 480 milhões de pessoas no mundo estão sendo alimentadas de modo insustentável. Segundo Brown, eles vivem de grãos irrigados com água extraída além da capacidade de reposição de lençóis freáticos.

São muitas as coisas que preocupam Brown, da crescente preocupação entre cientistas com o derretimento de geleiras pelo mundo à epidemia de Aids na África. A série de alarmes é soada pelo Worldwatch todos os anos com o volume "Estado do Mundo", uma bíblia ambiental que vende mais de 1 milhão de exemplares. A edição de 1999 -que traz dados de 1998 e foi lançada há dez dias no Brasil- trouxe Brown ao país. Ela pode ser encomendada pela Internet (http://www.worldwatch.org.br/).

Leia na entrevista abaixo por que Lester Brown considera que, apesar de muitas de suas previsões catastróficas não se verificarem, as ONGs terão um papel mais importante a cada dia. E uma boa notícia: em matéria de catástrofes naturais, 1999 será menos ruim que 1998.

Folha - No Brasil muitas pessoas acreditam que exista um dilema: ou se protege a Amazônia, ou se investe na melhoria da qualidade de vida nas cidades. Se o sr. fosse obrigado a estabelecer uma prioridade, por onde começaria?

Lester Brown - Não é realmente uma questão de optar por uma coisa ou outra. Vou lhe dar um exemplo. Em muitos lugares do mundo tentamos proteger ecossistemas, construímos cercas em volta de parques ou reservas naturais. Mas, se não pudermos estabilizar o clima, não haverá um (único) ecossistema que possamos preservar. Em muitos países, como na África, temos parques com cercas, mas, se não conseguirmos estabilizar a população, essas cercas não ficarão de pé.

Folha - Mas o sr. não acha que a questão populacional se encaminha sozinha para um cenário de estabilização? Muitas das previsões catastróficas não se verificaram. As projeções sobre crescimento da população vêm sendo revisadas para baixo pela ONU, porque ninguém foi capaz de prever que a taxa de fecundidade cairia tão rapidamente.

Brown - Acredito que, no final das contas, há muito mais gente preocupada com as questões ambientais hoje do que havia em 1972, por exemplo. O que é novo é que nas últimas projeções populacionais da ONU, atualizadas de dois em dois anos, pela primeira vez parte da redução no crescimento populacional vem do aumento da mortalidade. Eles reduziram a população projetada para 2050, no cenário médio, de 9,4 bilhões para 8,9 bilhões, na sua última revisão. Dois terços dessa redução por causa da queda na fertilidade, mas um terço por causa da mortalidade em ascensão.

Folha - Como na África, com a Aids, e na Rússia, com a crise?

Brown - De forma mais importante na África. É por isso que pessoas como (Paul) Ehrlich escreveram coisas como "A Bomba da População", 30 anos atrás. Lembro de uma resenha do livro de Rachel Carson, "Primavera Silenciosa", dizendo que suas projeções estavam erradas porque seu prognóstico estava certo. O que nós tentamos fazer é dizer o que poderia acontecer se as tendências da última década ou dos últimos 25 anos continuarem no futuro, quais são as consequências esperadas, e então as pessoas decidem se querem que essas tendências continuem. Torna-se parte do processo político. Se voltarmos e olharmos as projeções que eram feitas 25 ou 30 anos atrás, veremos que uma série de questões nem mesmo apareciam. "Limites do Crescimento" (Clube de Roma) não falava muito de aquecimento global. Mas você tem de lembrar que houve uma enorme reação mundial a "Limites do Crescimento", que desencadeou centenas de conferências, estudos e reavaliações.

Folha - Existe aqui a percepção de que o interesse público em questões ambientais vem declinando. Isso pode ter a ver com o fato de que o país está mais ocupado com gerar divisas para aplacar a sede de juros e de credibilidade em Wall Street. Essa acumulação de capital pode estar sendo feita, em certo sentido, à custa do aumento da pobreza e da degradação ambiental em países como o Brasil?

Brown - Nós não herdamos a Terra de nossos ancestrais, nós a tomamos emprestado de nossos filhos. Um economista que considere os preços de grãos, hoje, vai dizer que o problema é superprodução, que devemos ter maior capacidade do que demanda efetiva. Num certo sentido o economista estará certo, mas noutro sentido, muito importante, está errado. Nós estimamos, no "Estado do Mundo", que a quantidade de grãos produzida graças ao rebaixamento dos lençóis freáticos, por excesso de bombeamento para irrigação, totaliza cerca de 160 milhões de toneladas. O bastante para alimentar 480 milhões de pessoas, pela média global de consumo. Isso não é sustentável.

Folha - É uma externalidade, como dizem os economistas, um recurso que está sendo retirado do ambiente e cujo custo de reposição não está sendo pago.

Brown - Uma das razões pelas quais a economia do mundo vai tão bem nas últimas décadas é que só estamos pagando parte do custo dos combustíveis fósseis. Mas as gerações futuras terão de se haver com a mudança climática, com a elevação do nível dos mares, terão de pagar esse custo.

Folha - E o ano de 1999? Qual é a idéia que vocês estão formando sobre ele, em comparação com 1998? O sr. acredita que este ano deverá ser pior que os precedentes, em termos de desastres naturais, fortalecendo a tendência do aquecimento global?

Brown - O que estamos vendo em 1999, mais claramente do que nunca antes, é a evidência de apoio ao aquecimento global na forma de derretimento de geleiras. Parece haver relatos chegando de todas as partes do mundo. O derretimento está se acelerando. Os cientistas que estudam isso estão ficando alarmados, do mesmo modo que em 1985 os cientistas ficaram alarmados com o buraco do ozônio na Antártida. Uma geleira no leste do Himalaia recuou meia milha (cerca de 800 metros) desde 1990. Há muitas coisas começando a aparecer, e há mais e mais relatos de coisas saindo do gelo, seja um enorme mamute peludo na Sibéria, suas presas para fora da neve, ou o homem do gelo nos Alpes.

Folha - Mas isso entre cientistas. Quando se trata do público em geral, os srs. usaram no livro de 1999 um argumento poderoso: a cada ano, mais pessoas são afetadas por desastres naturais que poderiam ser atribuídos à mudança climática, como enchentes e furacões. Nesse sentido, o sr. tem alguma indicação de que 1999 será pior do que 1998, confirmando uma tendência de agravamento?

Brown - Por esses indicadores, 1998 foi um caso à parte. Nós trabalhamos com a empresa de resseguros Munich para desenvolver estimativas de danos relacionados com clima. Ficamos espantados, mais ou menos a esta altura do ano passado: esses danos em escala mundial chegavam a US$ 92 bilhões, mais do que em toda a década de 80. O número não cabia no gráfico. Este ano não será nem de longe tão alto.

Folha - Alguma outra tendência de 1999 que será destacada no "Estado do Mundo" de 2000?

Brown - Uma que se destaca é a epidemia de Aids na África subsaariana, que realmente está explodindo em cena. Estamos tentando já há dois anos atrair atenção pública para isso. Nossa preocupação é que os governos estão sendo sobrecarregados com esse rápido crescimento populacional, tentando educar todo mundo, achar empregos para todos que chegam ao mercado, tratar das consequências ambientais, como desmatamento e erosão do solo. Estão tão estressados que, quando surge um novo problema como o vírus HIV, talvez não sejam mais capazes de reagir. Um exemplo: companhias operando no Zimbábue de repente descobriram que suas despesas com seguro-saúde estavam duplicando, triplicando. Acho que isso vai cortar o fluxo de investimentos estrangeiros na África subsaariana, por causa do simples custo de lidar com esse problema. Em alguns hospitais da África do Sul, 70% dos leitos são ocupados por pacientes de Aids. No Zimbábue, 50% do orçamento para saúde vai para tratar pacientes de Aids.

Folha - ONGs não são eleitas, não há meios de controlar institucionalmente o que fazem e se de fato representam o interesse público. Esse é um tema de discussão entre ONGs, como torná-las mais sujeitas à prestação de contas para o público?

Brown - A emergência das ONGs, em certo sentido, é resultado das deficiências dos governos. Governos não satisfazem certas necessidades sociais, nas quais as ONGs estão dispostas a ajudar. Ao mesmo tempo, há um certo dilema, porque ONGs são uma maneira de estender a democracia, de dar às pessoas uma outra voz, particularmente quando o sistema político se tornou corrupto. Lembro de um encontro com um ministro do Ambiente da Rússia, há muitos anos, um antigo ambientalista. Na realidade, era o ministro soviético do Ambiente. Ele disse que achava o Worldwatch uma organização assustadora, porque era um punhado de gente em Washington D.C. influenciando políticas e decisões públicas pelo mundo inteiro. Ele perguntou: a quem vocês prestam contas? Acho que a resposta é que uma ONG socialmente irresponsável encontraria dificuldade em levantar fundos, pois muito do financiamento vem de fundações que também têm responsabilidade social. Mas é uma questão interessante, que vai se tornar ainda mais interessante no futuro, quando as ONGs desempenharem um papel mais proeminente. Uma razão para sermos tão reconhecidos como somos é que nenhuma agência da ONU ou de governo está produzindo o tipo de informação ambiental que o mundo precisa.

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