São Paulo, segunda-feira, 02 de julho de 2001


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TENDÊNCIAS/DEBATES

Bons ventos sopram de Sorocaba

Fernando Gabeira

Tirei um dia da semana, uma segunda-feira, para visitar Sorocaba (SP). O motivo de minha viagem é simples. Todos que viajam pela Europa ou pela Califórnia têm a possibilidade de ver aquelas enormes torres com três hélices rodando sem parar, produzindo energia a partir da força dos ventos. Soube que em Sorocaba se fabricam centrais eólicas. E fui ver.
No avião para Campinas pensei nas irônicas circunstâncias de minha viagem. O Brasil produz centrais eólicas e as exporta para o mundo inteiro, ávido de fontes renováveis de energia. Aqui dentro, no auge de uma crise energética, só se fala em gás, que não é renovável e, ainda por cima, "tensiona" um recurso vital: a água.
O dono da empresa de Sorocaba, Pedro Vial, me recebeu no aeroporto com seu Peugeot 406 Coupè e, antes de sair, por meio de seu telefone celular, dialogou em inglês com compradores, falou de novas encomendas. O ritmo parecia intenso, para acompanhar o crescimento dessa indústria, que aumenta 34% ao ano.
A imagem de Christopher Flavin (presidente da ONG WWI-Worldwatch Institute) sobre o que se passa no campo da energia me veio à mente: os derivados do petróleo são uma espécie de IBM e a energia eólica parece a Microsoft quando surgiu: os ritmos são diferentes, uma é pesada e lenta, a outra, leve e veloz.
Pedro Vial estava exultante com os resultados mundiais.
A Dinamarca foi uma espécie de pioneira porque recusou a energia nuclear e, por coerência, não importava energia dessa fonte. Depois veio a Alemanha, que, em 91, fez uma lei incentivando as energias alternativas, sobretudo garantindo que a energia eólica produzida fosse ligada à rede e obtivesse um preço mínimo.
Em seguida veio a Espanha e agora há uma corrida internacional. Índia e Turquia, por exemplo, entraram na corrida pela energia dos ventos e já dedicam a essa fonte uma boa parte de seu orçamento.
Por que o Brasil exporta e usa pouco? Isso é uma longa história. O interessante é examinar como os pioneiros trabalharam para que, no final, associados alemães chegassem a colocar um pé no mercado mundial. O passo inicial foi produzir aquelas pás que ficam rodando com o vento. São feitas de fibra de vidro, aparentemente simples. Vendo-as no chão é possível perceber melhor seu tamanho e, mais ainda, examinar seus detalhes. A tecnologia para aproveitar melhor o vento nasce também da engenharia dos planadores, que precisam voar o máximo e perder o mínimo de altura possível.
A fábrica de Sorocaba não é totalmente brasileira. Ela faz parte da Wobben Windpower, que tem base na Alemanha. Mas a verdade é que não só desenvolveu aqui quase toda a usina, como inventou técnicas novas. Uma delas foi montar uma usina nas dunas do Ceará, usina que funciona há dois anos e meio. E muito bem.
Os componentes eletrônicos do gerador ainda são importados. Mas isso se pode fazer no Brasil. No fundo, o principal desses componentes é um programa de computador que regulariza as correntes elétricas para que sejam bem aproveitas na rede e movimentem as pás para que fiquem sempre na posição mais favorável em relação aos ventos.
Como o tema é muito longo, ficarei apenas nos ventos. O Brasil já tem mapas dos ventos de vários Estados. E em pouco tempo sairá um atlas nacional. Quase todos esses trabalhos foram realizados por uma empresa de Curitiba, a Camargo Shubert, uma grande especialista nacional.
O que dizem os mapas é que os ventos sopram a favor do Brasil. Os alísios no Nordeste, sobretudo no Ceará e no Rio Grande do Norte, são de uma regularidade tranquilizadora. Aliás esses ventos no passado eram chamados "trade winds", porque era possível confiar neles para o comércio marítimo.
Quando sair o atlas dos ventos no Brasil será possível afirmar o potencial energético dessa fonte. É possível, dizem todos que trabalham na área, chegar a produzir 6.000 megawatts nos próximos cinco anos. Isso já daria um grande conforto para quem depende das hidroelétricas.
Os ventos sopram a favor do Brasil não só por causa de sua frequência e velocidade. Todas as curvas estudadas indicam que os ventos sopram mais no momento em que os reservatórios estão mais vazios. Na verdade vento e chuva se complementam, como se a natureza quisesse nos dar um conselho sobre o substituto ideal para a energia hidroelétrica.
Hoje as coisas ainda estão complicadas para o vento, facilitadas para os gases. Por exemplo: é mais barato produzir uma central eólica aqui, exportar para a Alemanha e enviá-la ao Ceará do que fazer diretamente no território nacional, pagando os impostos aqui devidos. Aos poucos, no entanto, a fábrica de Sorocaba, que vai ser replicada em Fortaleza em dezembro, acabará se impondo como a própria mensagem dos ventos no Brasil. Essa e outras modalidades de energia solar vão definir os rumos energéticos no século 21, junto com as células de combustível que se produzem a partir do hidrogênio.
Por enquanto existe ainda um certo fôlego para governos e analistas que querem tapar o sol com a peneira. Mas na rua todo mundo sabe o que é uma fonte de energia poderosa. Basta olhar para cima. A grande vitória do governo foi tornar a crise de energia um tema tão chato e sem inspiração que hoje não se vê mais brilho nos olhos quando se fala nele. A tentativa de dar um ar de normalidade à crise acabou roubando o fascínio da discussão.
O sol brilhando, os ventos soprando, ambos têm tempo de sobra para esperar que o Brasil os descubra. Enquanto isso, nossa indústria prospera exportando para os países que já se renderam a essas evidências esmagadoras da natureza.

Fernando Gabeira é deputado federal.



 
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