GAZETA MERCANTIL
Segunda-feira, 15-Jan-2001

Bíblia ambientalista descobre o Brasil
       São Paulo, 15 de janeiro de 2001 - Pela primeira em seus 18 anos, a bíblia dos ambientalistas abre espaço - de honra - para o Brasil. Lançada no último sábado, a edição 2001 do 'Estado do Mundo', publicado pelo WORLDWATCH Institute, usa as discrepâncias sociais observadas em Salvador para ilustrar as grandes mazelas deste início de milênio.

       Os cientistas do WORLDWATCH mapeiam as tendências sócioeconômicas e ecológicas do planeta e revisam indicadores de temas tão díspares como o tráfico de animais, a geração energética, a agropecuária, a demografia ou a influência do homem sobre seu entorno.

       Seu esforço tem o apoio do Fundo para a População das Nações Unidas e de uma dezena de fundações peso-pesado dos EUA, como a Ford e a Turner. O resultado é uma publicação em 35 idiomas, com mais de um milhão de cópias vendidas ao longo de quase duas décadas.

       Como de hábito, o retrato que emerge é incômodo, mas educativo. Christopher Flavin, economista, biólogo e presidente do WORLDWATCH, descreve a Bahia que visitou no ano passado como um pólo industrial atraente para multinacionais e repositório de uma biodiversidade recorde. A Mata Atlântica da região chega a ter 450 espécies de árvores por hectare, contra uma média de dez encontrada em bosques norte-americanos. Desvia, então, o foco para as favelas que circundam a cidade, a falta de sanitários, água corrente ou livros escolares.

       O case baiano se reproduz mundo afora. O 'Estado do Mundo' tenta entender um planeta cuja economia cresceu um terço em uma década, mas onde 1,2 bilhão de pessoas vivem com menos de US$ 1 por dia. 'Nos Estados Unidos, os 10% mais ricos têm seis vezes a renda dos 20% mais pobres; no Brasil, a relação é de 19 para um', lembra Flavin, que assina o primeiro capítulo. Não são as avaliações macro, porém, mas o detalhamento dos indicadores de qualidade de vida que mais ilustram as desigualdades Norte-Sul.

       A começar pelo ar que respiramos. A atmosfera sobre São Paulo tem quatro vezes mais dióxido de enxofre e aproximadamente o dobro do dióxido de nitrogênio e dos particulados encontrados no ar de Frankfurt. Os nossos pulmões não são os únicos a sofrer devido às emissões poluentes.

       'Taxas de crescimento de dois dígitos nos mercados de energia renovável e o segundo ano de declínio nas emissões globais de carbono foram insuficientes para reduzir o ritmo da mudança climática mundial', diz Flavin. Mantém-se, pois, a expectativa de uma elevação de temperatura na casa dos cinco graus no próximo século.

       'Enquanto a indústria naval começa a considerar o degelo ártico como uma oportunidade potencial de curto prazo - poderia reduzir a distância de viagem entre a Europa e o Extremo Oriente em até 5 mil quilômetros - as conseqüências ecológicas e econômicas de longo alcance seriam muito mais extensas e difíceis de prever'.

       A mais óbvia é o aumento dos acidentes naturais. A resseguradora alemã Munich Re, citada no estudo, mapeou esta evolução e concluiu que os desastres, concentrados sobretudo na Ásia e na América do Norte, pularam de 20 grandes catástrofes nos anos 50 para 86 nos anos 90. No pior ano da última década, 1998, foram perdidos US$ 93 bilhões com enchentes, seguidas por terremotos, vulcões e furacões.

       Apesar do diagnóstico sombrio, o 'Estado do Mundo' busca alternativa ao caos, como o respeito aos limites impostos pela natureza, o perdão da dívida dos países pobres, as tecnologias limpas, a racionalização do consumo de água ou a pressão da sociedade civil sobre os governos, para que combatam as máfias que exploram os recursos naturais.

       A edição brasileira, produzida pela Uma Editora, representante da WORLDWATCH no Brasil, poderá ser adquirida apenas pela internet, pelo email www.worldwatch.org.br. O primeiro capítulo também está disponível no site. (Gazeta Mercantil/Página A4) (Regina Scharf)