QUARTA-FEIRA, 8 DE AGOSTO DE 2001 - Nº 693


Cluster de Todos os Santos

Adotando os conceitos de agrupamento, atores internacionais investem na reorganização de setores da sociedade, batizando-os de clusters, com diversas vocações e tamanhos.
A internet, cluster das redes, exerce um papel-chave nesta nova ordem, une virtualmente centros decisores, agiliza a troca de informações, reduz custos e tempo e permite decisões rápidas com efeitos diretos nas comunidades e nas empresas.
O professor Michael Porter, renomado professor de gestão de empresas da Universidade de Harvard e promotor do conceito de clusters, afirmou em entrevista à revista Update, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham): "As cidades devem fazer o melhor uso possível de suas potencialidades, investindo na especialização".
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) está desenhando um novo mapa do Brasil, mostrando que a estrutura industrial brasileira mudou nos últimos 15 anos, indústrias do mesmo tipo estão se concentrando na mesma região, em busca de melhores índices de produtividade.
Observando o reordenamento global, vemos que entre 1970 e 2000, 30 anos apenas, a população mundial dobrou, o crescimento econômico desenfreado fez o PIB global passar de 16 trilhões de dólares para 43 trilhões de dólares, no mesmo período, deixando 45% deste montante para 12% da população mundial que vive nos países industrializados. Com este poder de renda concentrada, megaespeculadores circulam nas bolsas internacionais, fazendo migrar seus capitais na velocidade de um clique na www; transferindo seus cobiçados recursos para clusters, pressionando sociedades, empresas e mercados.
Os clusters são sinérgicos, diluem custos, somam esforços, otimizam investimentos e potencializam resultados. Setores de telecomunicações, petroquímico, automotivo, hoteleiro, indústria farmacêutica, bancos, são exemplos típicos. As empresas de comunicação estão no mesmo caminho. Hoje circulam nos EUA 1.483 jornais diários, a maioria controlada por seis empresas.
A respeitada empresa de pesquisa AT Kearney, responsável pelo mais importante relatório sobre investimentos internacionais, divulgou suas informações no início de fevereiro de 2001 mostrando o Brasil em terceiro lugar no ranking dos países mais procurados pelos investidores internacionais, atrás apenas dos EUA e China. Em 2000, 33 bilhões de dólares ingressaram no País para investimentos a longo prazo.
A Bahia, pelas suas características naturais, tem uma posição singular nesta nova ordem, é cluster do acarajé, cluster da música, cluster das festas, da culinária, da cultura, da arte, da folia, do bom clima, da literatura e do cacau. Tem clusters em todas as áreas que interessam aos bilionários fundos de investimentos internacionais, especialmente os de entretenimento, e mais, tem os clusters intangíveis da cultura de paz, do sincretismo e o da magia, que eles nem sonham existir.
Pesquisa de opinião pública internacional realizada pela Espanha - um dos países que mais investem e ganham com o entretenimento no mundo - buscou identificar o perfil do novo turista. O resultado surpreendeu os espanhóis: o novo turista quer paz, ir para algum lugar para fazer nada, tropical, com gente amiga e festeira, praias calmas, água morna e cristalina, natureza intacta e comida saborosa. Eles fogem de hora marcada, querem ar livre e hotéis de mil estrelas. Onde tem tudo isto? O inconsciente coletivo do turista internacional criou um sonho idílico e está à procura desta terra da felicidade. Precisamos nos preparar com inteligência para este encontro. Temos in-natura o que Disney produz em ficção, gerando lá riquezas e empregos, atraindo os recursos do megamercado do entretenimento. A cultura de paz, a folia, a alegria contagiante, a hospitalidade herdada principalmente dos africanos e portugueses, acentuada pela miscigenação da gente, são bens preciosos. A Bahia é ainda guardiã de parte restante da Mata Atlântica, um dos mais importantes biomas da Terra, declarada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Seus hot-spots abrigam recordes mundiais de biodiversidade - 450 diferentes espécies por hectare (a média numa floresta americana é de cerca de dez espécies por hectare). Pode preparar-se para ser mostrada ao mundo como um "cluster econológico", onde se investe na economia, melhorando a qualidade de vida da sua população e preservando os ecossistemas. Perfeita para o turismo ecológico que teve o ano de 2002 designado pela ONU como "Ano Internacional do Ecoturismo".
Enquanto o ecoturismo vira tendência mundial, as florestas encolhem, pressionadas pelo aumento do comércio de produtos do extrativismo florestal, que pulou de US$ 29 bilhões em 1961 para US$ 139 bilhões em 1995, especialmente no chamado primeiro mundo.
Surgindo como contraponto, os Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), previstos pelo Protocolo de Kyoto, já estão em vigor desde o ano passado. O seqüestro de carbono pelas florestas é um mercado potencial de mais de 10 bilhões de dólares.
Na floresta plantada, o "crescimento" das árvores é comercializado como sumidouro do carbono produzido pelas indústrias dos países emissores. O cluster do reflorestamento embute a idéia da conservação e vai além, preserva gerando emprego e renda, promove lucro social, econômico e ecológico.
Enquanto se busca enxergar os clusters da Bahia, há tempos expostos diante dos olhos, precisa-se organizar a casa, especialmente a legislação ambiental municipal, para passar a constar no mapa do IBGE com o potencial que tem, mostrando aos investidores www, caçadores de clusters, o paraíso econológico sonhado, uma parte de Gaia que coloca o homem no centro da natureza e promove o usufruto inteligente, racional e responsável, sensação do novo mercado bilionário eco-consciente que surpreende a Espanha.
A Bahia tem tudo o que os novos turistas e investidores querem e, de quebra, guarda um segredo para deixá-los em êxtase, é sede de um cluster único no planeta, o "Cluster de Todos os Santos", um santuário sagrado. Congêneres só no céu.

Eduardo Athayde
Administrador, empresário, diretor da UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica e editor do WWI-Wordwatch Institute no Brasil. www.wwiuma.org.br; e-mail: uma@fib.br

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