GAZETA MERCANTIL

RG/R. Janeiro
Quarta-feira, 06-Jun-2001

Questão hídrica exige atenção
       06 de Junho de 2001 -

       Alberto Rogério Benedito da Silva *

       Ontem foi comemorado mais um 'Dia Mundial do Meio Ambiente'. Por ser o primeiro do novo milênio, talvez houvesse um motivo a mais para festejos. Entretanto, esse apelo não teve muito eco. Atualmente, em março, o 'Dia Mundial das Águas' também vem sendo efusivamente prestigiado, tudo porque a água é uma das prioridades para esta nova era e a sua escassez tem preocupado governos, sociedade e cada um dos seres humanos.

       Há alguns dias, o jornalista Lúcio Flávio Pinto escreveu para o site da Agência Estado a matéria denominada 'O sinal das águas'. Nela, comenta sobre a abundância de água que detemos e o aumento de volume de nossos rios, em função do período de cheia que afeta anualmente o Rio Amazonas. Comenta sobre o potencial hidrelétrico dizendo que: 'em média, a descarga do Amazonas supera 200 milhões de litros de água por segundo. É 20 vezes a vazão do Tocantins, que aciona as turbinas da segunda maior hidrelétrica do País, a de Tucuruí. Se uma barragem fosse construída em Óbidos, seria possível gerar energia equivalente a dez usinas de Itaipu'. Um contraste realmente, enquanto as regiões Sudeste e Nordeste sofrem com os níveis baixos de precipitação, aqui temos o contrário.

       Na mesma linha de raciocínio, Lester R. Brown, presidente do WORLDWATCH Institute, veiculou no site de sua instituição: 'O desafio das águas - um deserto cheio de gente'. Tece comentários sobre o decréscimo do volume de água dos lençóis freáticos em todos os continentes e a crescente demanda por recursos hídricos. Ressalta que, os três bilhões de habitantes que devem ser adicionados à população mundial nos próximos 50 anos nascerão em países que já sofrem de escassez de água. Para se ter uma idéia, a média per capita mundial do consumo de grãos (pouco mais de 300 quilos/pessoa/ano) alimentaria 480 milhões de pessoas, ou seja, 480 milhões das seis bilhões de pessoas do mundo estão sendo alimentadas com grãos produzidos através do uso insustentável da água. Cerca de 70% da água consumida mundialmente, incluindo a desviada dos rios e a bombeada do subsolo, são utilizados para irrigação. Aproximadamente 20% vão para a indústria e 10%, para as residências. Na competição cada vez mais intensa pela água entre esses setores, a agricultura quase sempre sai perdendo. Embora ainda existam oportunidades para o desenvolvimento de novos recursos hídricos, a restauração do equilíbrio entre consumo da água e o seu abastecimento sustentável dependerá, fundamentalmente, de iniciativas do lado da demanda como a estabilização populacional e a elevação da produtividade hídrica.

       Da mesma forma que o mundo voltou-se à elevação da produtividade da terra há meio século, quando as fronteiras agrícolas desapareceram, agora também deve voltar-se à elevação da produtividade hídrica. E, para isso, alguns passos devem ser dados. O primeiro, eliminar os subsídios da água que incentivam a ineficiência. E o segundo, aumentar o preço da água, para refletir seu custo. Não há dúvidas de que essas mudanças serão mais rápidas se o preço da água for mais representativo que seu valor.

       O governo deve ficar atento a esses chamamentos, pois apesar de termos abundância de água e de recursos hídricos, se faz necessário exercer uma boa gestão para o bem de gerações presentes e futuras.

       O World-watch Institute (WWI), através do site www.wwiuma.org.br, divulgou como parte de seu relatório anual 'O Estado do Mundo 2001'. O livro, que apresenta o Brasil como maior potência ambiental do mundo, foi batizado pela imprensa internacional de 'Bíblia do Meio Ambiente', dada a sua larga utilização pela ONU, governos, universidades, ONGs e empresas. A obra é publicado há 18 anos consecutivos em 36 idiomas, com mais de um milhão de cópias vendidas.

       Para Hilary French, autora de Vanishing Borders: Protecting the Planet in the Age of Globalization, 'o incremento na movimentação de bens, valores, espécies e poluição através de fronteiras internacionais está exercendo pressões sem precedentes sobre o planeta'. As exportações mundiais de bens aumentou 17 vezes entre 1950 e 1998 (US$ 311 bilhões contra US$ 5,4 trilhões), o volume de investimentos externos diretos vem crescendo quase 15 vezes desde 1970, chegando a US$ 644 bilhões, em 1998, e o número de corporações transacionais, em todo o mundo, aumentou de sete mil, em 1970, para cerca de 60 mil, hoje.

       Todas essas tendências provocam grandes desafios ambientais. A globalização é uma poderosa força motriz causada por implosão biológica sem precedentes. E o comércio internacional envolve um mecanismo possante, por onde produtos e tecnologias nocivas se movem em torno do planeta, haja vista que nas últimas décadas foi instalada parcela significativa de indústrias diversas. Apesar dos riscos ambientais, as forças da globalização podem produzir ganhos ambientais, fazendo com que os países em desenvolvimento passem, de uma só vez, a utilizar tecnologias mais limpas.

       Várias nações estão se movimentando para dominar a economia global, mais voltadas à proteção do que à destruição da riqueza natural. A partir de 1994, quando foi criada a Organização Mundial do Comércio, seus painéis de arbitragem têm decidido que várias leis ambientais representam barreiras comerciais ilegais. Essa linha poderia ser seguido pelos ambientalistas, principalmente para pressionar por compromissos ambientais internacionais que sejam tão específicos e implementáveis como os acordos comerciais. Um avanço maior seria a transformação do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) em Organização Mundial para o Meio Ambiente.

       Essa proposta de Hilary French daria poder para que a nova organização pudesse coordenar e fortalecer a variedade dispersa de entidades de tratados ambientais. Eis, portanto, uma grande reflexão sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente de 2001.

       * Geólogo-consultor mineral e ambiental - e-mail: rogerio@supridad.com.br - juruti@yahoo.com.br