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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
Entrevista LESTER BROWN

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Poluiu, pagou

O fundador do Instituto Worldwatch
diz que quem destrói a natureza só
entende uma linguagem:
a punição
econômica

Bia Barbosa

 
Divulgação
"Temos de mudar a tributação
e aumentar os impostos das atividades que destroem a natureza"

O americano Lester Brown começou a trabalhar na plantação de tomate da família aos 10 anos. Nas horas vagas, lia biografias de Benjamin Franklin e Abraham Lincoln. Dessas leituras nasceu, ele diz, a determinação de se dedicar a causas humanitárias. Em 1974, depois de trabalhar dez anos para o governo dos Estados Unidos, fundou o Instituto Worldwatch, uma das maiores e mais respeitadas organizações internacionais voltadas para a pesquisa do ecossistema. Sob sua direção, o instituto produz o relatório anual Estado do Mundo, que se tornou a bíblia do movimento ambientalista, publicado em mais de trinta línguas. Na semana passada, Brown fundou outra organização, o Instituto Earth Police. Ele tem 22 livros publicados, ganhou dezenas de prêmios, trabalha sete dias por semana e, aos 67 anos, não pensa em parar. "Adoro o desafio de procurar soluções para nossos problemas. Espero viver para ver esses resultados." Da sede do Instituto Worldwatch <www.worldwatch.org.br>, em Washington, Lester Brown concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Estamos passando por um fenômeno de aquecimento global. Mas se discute se isso decorre de um ciclo natural do planeta ou da ação humana. Quem é o responsável?
Brown – Não há mais dúvida de que as mudanças ambientais são causadas pelo homem. Não sou só eu que penso assim. Mais de 1.500 pesquisadores ligados à ONU provaram cientificamente que as mudanças climáticas são resultado da emissão de combustíveis fósseis na atmosfera. Isso, com certeza, é responsabilidade do homem.

Veja – Há maneiras de reverter o estrago causado ao planeta ou já é tarde para isso?
Brown – Não tenho dúvida de que estamos perdendo essa guerra. Eu trabalho com esses assuntos há quase três décadas e todos os anos as florestas ficam menores, os desertos tornam-se maiores, o número de espécies no planeta diminui, o nível do mar continua a subir, a Terra está ficando mais quente, o gelo está derretendo. A tendência é para o lado errado. É preciso parar. No final, isso vai destruir nossa economia.

Veja – O que é preciso fazer?
Brown – A chave é reestruturar nossa economia para torná-la ambientalmente sustentável. Temos de mudar o sistema tributário reduzindo o imposto de renda e aumentando a taxação de atividades que destroem o meio ambiente. O problema é que o mercado não reflete o custo real das coisas. Por exemplo, quando você compra 1 litro de gasolina, paga para ter o petróleo extraído e refinado e pelo transporte do combustível até o posto. Mas não paga pelo custo da poluição do ar e da emissão dos combustíveis fósseis na atmosfera. Nesse caso, precisamos de um imposto de carbono, que reflita o custo para a sociedade de queimar 1 litro de gasolina. Se começarmos a dizer a verdade, os problemas podem ser resolvidos facilmente.

Veja – Nesse caso, qual deve ser a prioridade de um país em desenvolvimento, como o Brasil? O crescimento industrial e a melhoria das condições de vida de seu povo ou a preservação do meio ambiente?
Brown – Temos de pensar nas duas coisas caminhando lado a lado. Se você se preocupar somente com o crescimento industrial e esquecer os recursos naturais, as gerações futuras vão pagar um preço alto, independentemente de se tratar de um país desenvolvido ou em desenvolvimento. Sei que é difícil, que não vai acontecer do dia para a noite. O processo pode levar anos, talvez décadas. Mas a transição precisa ser gradual se quisermos manter o crescimento da economia.

Veja – O presidente americano George Bush diz que o momento é de crescer, não de proteger o meio ambiente. Até que ponto podemos estabelecer um controle ambiental na economia sem inibir o crescimento econômico?
Brown – A questão é outra. Se nada for feito, a longo prazo não haverá nenhum crescimento. A pergunta mais relevante é quanto isso vai custar se não tomarmos uma atitude imediatamente. A resposta é: esse custo levará ao declínio a economia que conhecemos hoje. Foi o que aconteceu com antigas civilizações que se deixaram guiar apenas pela economia. As mudanças que promoveram foram ambientalmente insustentáveis; elas não foram capazes de fazer os ajustes necessários e por isso acabaram.

Veja – Como a preocupação ecológica pode salvar a civilização?
Brown – Tivemos duas grandes revoluções em termos de mudanças nas atividades econômicas. A primeira foi a revolução agrícola, há 10.000 anos. A segunda foi a industrial, que começou há dois séculos. Estamos agora diante de outra grande reestruturação, que chamamos de revolução ambiental. A diferença é que uma durou muitos milênios e a outra, dois séculos. A revolução ambiental precisará acontecer em poucas décadas se quiser resultados.

Veja – A revolução ambiental que o senhor propõe não terá um custo pesado em termos de quantidade de empregos?
Brown – Na verdade, vamos criar mais indústrias. A principal será a da reciclagem. Quando abandonarmos a "economia do joga fora", teremos uma enorme quantidade de novos empregos. Teremos também um crescimento na área da energia. Se construirmos usinas eólicas, haverá demanda para construtoras locais instalarem as turbinas movidas a vento e demanda para sua manutenção, que criará outros empregos locais. A energia eólica requer muito mais mão-de-obra do que a gerada pela queima dos combustíveis fósseis. Passarão a existir profissões novas no que chamamos de ecocultura. Veja o caso da pesca oceânica, que está esgotada e precisa ser substituída por criatórios. Precisaremos, nesse caso, de novos tipos de veterinários, especializados em peixes.

Veja – Banir o combustível fóssil não colocaria em risco o sistema energético?
Brown – De modo algum. Nos Estados Unidos, o Departamento de Energia está fazendo um inventário de recursos eólicos e concluiu que três Estados americanos (Dakota do Norte, Kansas e Texas), localizados em grandes planícies, podem gerar energia elétrica suficiente para manter todo o país. É um potencial a ser explorado, comparável ao gerado hoje pelas termelétricas. Quando essas usinas estiverem funcionando, teremos energia de sobra e poderemos usá-la de outras formas.

Veja – Que formas?
Brown – Por exemplo, para produzir hidrogênio por meio de uma reação eletroquímica. O hidrogênio é um dos combustíveis do futuro. As grandes empresas automobilísticas já estão trabalhando nos motores à base de célula de combustível. William Ford, presidente da Ford, já disse que espera presenciar a morte dos motores de combustão interna. Se seu bisavô ouvisse isso, provavelmente levantaria do túmulo. Mas essa é a nova realidade. No futuro, o vento não será usado apenas para gerar energia elétrica, mas na produção do combustível necessário para mover os automóveis. É um mundo muito diferente daquele em que vivemos hoje, mas esse mundo está muito perto de se tornar real.

Veja – Qual o papel do Brasil nessa conjuntura?
Brown – Uma das vantagens de países como o Brasil é poder tomar atalhos para o futuro. Se sabem que em pouco tempo não usaremos combustíveis fósseis em grande escala, podem começar a procurar por fontes alternativas de energia. O Brasil não precisa fazer investimentos em usinas elétricas que funcionam à base de carvão ou petróleo. Ele pode pegar um atalho agora e apostar na energia eólica.

Veja – O que o senhor acha da idéia de uma indústria poluidora compensar a emissão de gases tóxicos na atmosfera com o patrocínio do reflorestamento de uma área?
Brown – Nós temos de fazer mais do que compensar, porque no geral estamos perdendo. Numa escala menor, isso pode até ser possível, mas, basicamente, temos mesmo é de reduzir a emissão de combustíveis fósseis se quisermos estabilizar o clima do planeta.

Veja – Além do esforço global, ações locais não são importantes para conseguirmos alcançar esse resultado mais rápido?
Brown – Sim, e alguns países já estão começando a tomar atitudes por conta própria. Não estão esperando pela aprovação do Protocolo de Kioto, que prevê para 2012 uma redução de 5% na emissão de combustíveis fósseis pelos países industrializados, para fazer algumas coisas. A Dinamarca baniu a construção de usinas termelétricas e agora está concentrando esforços no desenvolvimento da energia eólica. Há pouco tempo, a Alemanha decidiu mudar seu sistema tributário e pretende, em quatro anos, reduzir em 16 bilhões de dólares a arrecadação com o imposto de renda e aumentar, exatamente no mesmo valor, as tarifas para o uso de energia. Isso desencorajará a utilização irresponsável da energia e incentivará a busca por eficiência.

Veja – E o Brasil está fazendo um bom trabalho?
Brown – Há algumas coisas positivas acontecendo no Brasil. Uma delas é um avanço no sistema de transportes e de reciclagem que está ocorrendo em cidades como Curitiba, no Paraná. O que eles estão fazendo é um modelo para todo o mundo. Com criatividade e um excelente sistema de transporte público, aumentaram a mobilidade da população ao mesmo tempo que reduziram o uso de automóveis. É dessa criatividade que precisamos em nível nacional e em mais e mais países. Por outro lado, o Brasil não tem feito muito em relação à energia limpa e à energia solar. Quanto a isso, está muito atrás de outros países.

Veja – Qual sua opinião sobre a decisão do governo americano de não ratificar o Protocolo de Kioto?
Brown – Foi vergonhosa. O problema gerado vai além da questão do clima. Ao declarar morto o Protocolo de Kioto, Bush sugeriu que os Estados Unidos não são capazes de assumir seus compromissos, colocando em dúvida seu papel de liderança na comunidade internacional. Acredito que não esperava tanta reação mundial. Ele já sabe que cometeu um erro e está-se esforçando para consertá-lo.

Veja – A poluição é a pior ameaça ao planeta?
Brown – Para mim, os dois grandes perigos, que eu coloco juntos no topo da lista, são a mudança climática e o crescimento da população. Se não estabilizarmos o clima e a população, provavelmente não poderemos salvar nenhum outro sistema ecológico da Terra. Em 1900 havia 1,5 bilhão de pessoas no mundo. Hoje existem 6 bilhões. A atividade econômica atual é dezesseis vezes maior do que era naquela época. E é isso que está criando tantos problemas.

Veja – Que tipo de mundo podemos esperar se não conseguirmos resolver esses problemas?
Brown – Ninguém tem certeza do que pode acontecer. Já sabemos que a mudança climática pode tornar-se altamente destrutiva, com tempestades arrasadoras, degelo dos pólos, aumento do nível do mar. Se você combinar tudo isso, terá um estrago indescritível nas regiões costeiras, onde vive a maior parte da população do mundo. O colapso do ecossistema vai levar ao colapso da economia. Mas prefiro olhar o outro lado da moeda. Se conseguirmos estabilizar o clima e o crescimento da população, muitos dos problemas serão administráveis. E eu sou bastante otimista; do contrário, já teria ido embora para casa há muito tempo. O problema é que ainda não estamos fazendo nada.

Veja – E por que não?
Brown – Acho que nem todos estão convencidos de que essa mudança é necessária e há muita gente interessada em manter a economia existente. O mundo da alta tecnologia, das sociedades urbanizadas, parece ter-se esquecido completamente de que nós dependemos de nossos sistemas naturais. O mundo da globalização econômica não é muito sensível aos assuntos ambientais. Tivemos uma clara demonstração disso na última reunião da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, Estados Unidos, em novembro do ano passado. Aquelas manifestações refletiram a opinião pública e mostraram que não podemos olhar para os assuntos econômicos isoladamente. Temos de pensar em termos sociais e ambientais ao mesmo tempo.

Veja – Na questão do meio ambiente, a globalização ajuda ou atrapalha?
Brown – Pela primeira vez, estamos tratando de assuntos ambientais globais junto com todo o mundo. Até recentemente não tínhamos isso, fosse para estudar a camada de ozônio, para estabilizar o clima ou para proteger a pesca oceânica. De repente temos uma situação maravilhosa, em que compartilhamos esses recursos. Isso só foi possível com a globalização.

Veja – Na semana passada o senhor inaugurou um instituto que pretende justamente divulgar uma grande quantidade de informações para a mídia através da internet. Por que esse cuidado especial com a mídia?
Brown – Se não conseguirmos reverter essa tendência e continuarmos a destruir gradualmente o futuro de nosso ambiente, teremos sérios problemas. E para mostrar as mudanças necessárias e os caminhos disponíveis há a necessidade de muita informação, as pessoas precisam entender por que precisamos fazer essas mudanças. A única instituição capaz de disseminar informações na escala necessária e no tempo disponível são jornais e revistas como a VEJA. A mídia é essencial nesse caso. Não foram os editores e repórteres que pediram essa responsabilidade, mas não há alternativa.

 
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